Negociar salário deixa quase todo mundo desconfortável. A gente tem medo de parecer ingrato ou de perder a vaga, e acaba aceitando o primeiro número. É compreensível, e ao mesmo tempo é uma conversa de poucos minutos que influencia o que você recebe pelos próximos anos. Com um pouco de preparo, ela fica bem mais tranquila.
Esse texto é pra quem recebeu ou está perto de receber uma proposta de trabalho, em qualquer faixa de salário e em qualquer área. Vou passar por três ideias que ajudam na conversa, pelo que olhar além do salário e pela comparação entre CLT e PJ. Os valores que aparecem são só exemplos de conta. Troque pelos seus.
Uma coisa antes de começar: negociar é normal, e as empresas esperam por isso. Perguntar com educação não costuma fazer ninguém perder uma proposta.
Ideia 1. Tente conhecer a faixa antes de dizer um número.
Quem fala o primeiro número define o ponto de partida da conversa. Se você disser um valor abaixo do que a empresa tinha reservado, é provável que a proposta fique por ali. Por isso ajuda perguntar a faixa antes.
Algumas formas de perguntar, com naturalidade:
“Antes de falar em valor, queria entender melhor o pacote completo. Vocês têm uma faixa definida pra essa vaga?”
“Qual é o intervalo previsto pra essa posição?”
Se insistirem na sua pretensão, tudo bem responder. Nesse caso, vale ter pesquisado antes quanto o mercado paga por uma função parecida na sua região, em sites de vagas e de salários ou conversando com colegas da área.
Ideia 2. Tenha três números na cabeça.
Antes da conversa, ajuda definir três valores. Eles dão segurança pra responder sem improvisar.
Os três números (exemplo de conta)
Piso
O mínimo pra troca valer a pena pra você
Ex: R$ 3.600
Alvo
O que você considera justo pela função
Ex: R$ 4.000
Pedido inicial
Um pouco acima do alvo, uns 10% a 15%
Ex: R$ 4.500
É comum a empresa responder com um valor abaixo do pedido. Começar um pouco acima do alvo deixa espaço pra conversa terminar perto dele.
O piso depende da sua alternativa. Na teoria de negociação isso se chama BATNA, a melhor opção que você tem se o acordo não sair: continuar onde está, seguir em outro processo, esperar mais um pouco. Quando existe alternativa, dá pra negociar com mais calma. Quando não existe, aceitar uma proposta abaixo do alvo é uma decisão legítima, e você pode voltar ao assunto depois de alguns meses de casa.
Ideia 3. Olhe o pacote inteiro.
O salário é uma linha da proposta. Os benefícios podem representar uma parte importante do que você recebe, e nem toda empresa oferece os mesmos. Vale perguntar sobre cada um.
O que perguntar além do salário
Vale-refeição ou alimentação
Valor mensal e se há desconto em folha
Mensal
Vale-transporte ou auxílio deslocamento
Quanto custa ir e voltar do trabalho novo
Mensal
Plano de saúde
Quem paga, se cobre dependentes, se há coparticipação
Mensal
Auxílio pra trabalho remoto
Internet, energia, equipamento
Mensal
Bônus ou PLR
Quanto foi pago de fato nos últimos anos
Anual
Jornada e escala
Horário, dias presenciais, banco de horas
Rotina
Peça a proposta por escrito com todos os itens. Se algum não aparecer, vale perguntar.
Bônus e PLR: pergunte o histórico.
Quando a empresa fala em “bônus de até dois salários”, esse é o teto. Perguntar quanto foi pago em média nos últimos anos, pra cargos parecidos com o seu, dá uma ideia mais realista do que esperar.
Participação em ações, se houver.
Algumas empresas, principalmente startups, oferecem opções de ações. Antes de contar com isso como parte do salário, vale entender três coisas: quanto você paga pra exercer as opções, em quanto tempo elas passam a ser suas e o que acontece se você sair antes. Sem essas respostas, é mais seguro tratar como um possível extra.
CLT ou PJ: como comparar.
É comum receber a mesma vaga com dois valores, um CLT e um PJ mais alto. Os dois formatos têm vantagens, e a comparação só fica justa quando entra na conta o que o CLT inclui e o PJ não.
O que o contrato CLT inclui além do salário mensal
13º salário
Um salário a mais por ano
8,3% ao mês
Férias com adicional de 1/3
Um salário e um terço por ano
11,1% ao mês
FGTS
Depositado pela empresa na sua conta vinculada
8% ao mês
INSS pago pela empresa
Não vai pro seu bolso, mas conta pra aposentadoria e auxílios
Parte da empresa
Proteção na saída
Aviso prévio, multa do FGTS e seguro-desemprego
Se for desligado
Só 13º, férias e FGTS somam cerca de 27% do salário. Um valor PJ precisa ser pelo menos isso maior pra empatar, antes de contar impostos e custos da empresa.
Do lado do PJ, entram os impostos da empresa (que variam conforme o regime e a atividade), o INSS que você recolhe por conta própria, o contador e, se for o caso, o plano de saúde pago por você. Também vale reservar todo mês o equivalente a férias e 13º, já que os meses sem trabalhar não são pagos.
Com tudo isso na conta, às vezes o PJ continua valendo mais, às vezes empata. Um contador consegue simular os dois cenários com os seus números em pouco tempo, e costuma compensar.
A saída do emprego atual também entra na conta.
Quem pede demissão recebe saldo de salário, 13º proporcional e férias vencidas e proporcionais com o terço. Não há saque do FGTS nem seguro-desemprego nesse caso. Vale simular esses valores antes de combinar a data, porque eles ajudam a atravessar o primeiro mês no emprego novo.
Confira também o aviso prévio. Em geral são 30 dias, e a empresa atual pode dispensar o cumprimento ou descontar o período se você não cumprir. Alinhar a data de início na empresa nova com esse prazo evita desconto.
O que conferir na proposta escrita.
Antes de aceitar, mesmo que a conversa tenha sido por telefone ou mensagem, vale pedir por escrito: salário e forma de contratação, data de início e período de experiência, benefícios com valores, regras do bônus e qualquer cláusula de exclusividade ou de não concorrência. Isso protege os dois lados e evita mal-entendido depois.
Onde a Fyn8 entra.
Uma proposta muda mais do que o salário: muda o transporte, o plano de saúde, às vezes o aluguel. No planejamento da Fyn8 você ajusta a renda e os gastos que mudariam e vê como ficam os próximos meses. Isso ajuda a comparar duas propostas ou a decidir se vale pedir um pouco mais. Dá pra fazer a mesma comparação numa folha, com duas colunas: como é hoje e como ficaria.
Preparo vale mais que coragem.
Negociar não exige ser bom de lábia. Exige chegar sabendo a faixa do mercado, os seus três números e o que perguntar além do salário. Com isso em mãos, a conversa vira uma troca de informações, e o desconforto diminui bastante.
Nem sempre dá pra negociar, e aceitar uma proposta como ela veio também pode ser a melhor decisão pro seu momento. Se quiser começar por algum lugar, pesquise hoje quanto o mercado paga pela sua função. Só esse número já muda a sua próxima conversa.
Referências
- I Will Teach You to Be Rich. Ramit Sethi, 2009.
- Never Split the Difference. Chris Voss, 2016.
- Free to Focus. Michael Hyatt, 2019.
- Casais Inteligentes Enriquecem Juntos. Gustavo Cerbasi, 2004.
- Me Poupe!. Nathalia Arcuri, 2018.
- Do Mil ao Milhão sem Cortar o Cafezinho. Thiago Nigro, 2018.
- Consolidação das Leis do Trabalho (CLT): 13º, férias, FGTS, aviso prévio e verbas rescisórias. Ministério do Trabalho e Emprego.
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Escrito por
Bruno Carneiro
Fundador da Fyn8
Fyn8 — Finanças pessoais
Um começo simples: entender o próprio mês.
Cria a conta, lança algumas transações e o extrato começa a fazer sentido no mesmo dia.