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MEI: virou PJ e agora?

Abrir o CNPJ é a parte fácil. O primeiro ano de MEI é uma escola meio dura de gestão, imposto e reserva. Aqui vai o kit inteiro, com os números que ninguém te avisa antes.

Bruno Carneiro

Por Bruno Carneiro

Fundador da Fyn8

19 de agosto de 202610 min de leituraMétodo

Abrir o CNPJ leva quinze minutos no gov.br. Fazer o negócio não quebrar no primeiro ano é outra história. O MEI é um dos melhores regimes tributários do mundo pra quem tá começando. Também é uma armadilha pra quem confunde faturamento com salário.

Se você acabou de virar MEI, ou tá pensando em virar nas próximas semanas, este texto é o kit financeiro do ano 1. Sem discurso de liberdade e sem promessa de escala. Só as contas que ninguém faz com você antes de assinar.

O básico do regime, com os números de 2026.

MEI é uma categoria simplificada do Simples Nacional. Você paga um valor fixo por mês, chamado DAS, que já embute INSS, ICMS ou ISS conforme sua atividade. Em troca, tem um teto de faturamento anual e não precisa contratar contador (embora um contador barato ainda seja a melhor decisão do ano).

MEI 2026: números que vale saber de cor

  • Teto de faturamento anual

    Se passar, você desenquadra e vira ME

    R$ 81.000

  • Média mensal máxima

    R$ 81.000 ÷ 12

    R$ 6.750

  • DAS mensal, comércio e indústria

    INSS + ICMS

    ~R$ 76

  • DAS mensal, serviços

    INSS + ISS

    ~R$ 80

  • DAS mensal, comércio e serviços

    INSS + ICMS + ISS

    ~R$ 81

  • Vencimento do DAS

    Todo dia 20 do mês seguinte

    dia 20

  • Declaração anual (DASN-SIMEI)

    Obrigatória, até 31 de maio

    1× ao ano

Os valores do DAS mudam junto com o salário mínimo todo janeiro. Confirme sempre em gov.br/mei antes de fechar o mês.

Conta PJ apartada da conta PF. Isso não é opcional.

A primeira coisa que salva um MEI no ano 1 é abrir uma conta bancária pessoa jurídica separada e nunca, jamais, misturar. Nubank PJ, Inter Empresas, Cora, Stone. Qualquer banco digital resolve, a maioria com taxa zero.

Todo pagamento de cliente cai na conta PJ. Todo custo do negócio (ferramenta, transporte de trabalho, marketing, contador) sai da conta PJ. E, uma vez por mês, você transfere pra conta PF um valor fixo, que é o seu pró-labore. Salário do dono.

Parece burocracia, mas é o único jeito de você saber, no fim do mês, se ganhou ou perdeu dinheiro. E de saber, no fim do ano, quanto declarar no Imposto de Renda como rendimento tributável (o pró-labore) e quanto como lucro isento (a diferença, se houver).

Faturamento não é seu. É da empresa. O que é seu é o pró-labore.

A regra dos 30% de cada nota.

Chegou pagamento de cliente na conta PJ? Antes de comemorar, separa 30% do valor bruto em uma subconta ou em um Tesouro Selic apartado. Esses 30% cobrem:

Pra onde vai a mordida dos 30% (média)

  • DAS mensal

    O boleto fixo do MEI

    ~R$ 80

  • Reserva de imposto pra quando virar ME

    Se crescer, você vai precisar

    10%

  • Contador (opcional mas recomendado)

    R$ 100 a R$ 250 por mês

    ~R$ 150

  • Reserva de emergência do negócio

    Meses sem venda acontecem

    15% a 20%

Se você faturar sempre perto do teto, esses 30% viram uma reserva de negócio robusta. Se faturar pouco, ainda cobrem o DAS e o mês difícil.

Regra prática: entrou R$ 5.000 de um cliente, R$ 1.500 já vão pra subconta antes de você pensar em qualquer coisa. Os R$ 3.500 restantes é que compõem o seu pró-labore (menos custos operacionais do mês).

INSS do MEI: o que dá e o que não dá.

O DAS inclui 5% do salário mínimo como contribuição ao INSS. Isso te dá alguns direitos, mas menos do que muita gente pensa.

INSS do MEI: o que cobre

  • Contribuição mensal ao INSS embutida no DAS

    5% do salário mínimo vigente

    ~R$ 76

  • Aposentadoria por idade

    Homem 65, mulher 62, 15 anos de contribuição

    1 salário mínimo

  • Aposentadoria por tempo

    Não conta pelo MEI

    não vale

  • Auxílio-doença

    Depois de 12 meses contribuindo

    sim

  • Salário-maternidade

    Depois de 10 meses de MEI

    sim

  • Pensão por morte pra dependentes

    sim

A aposentadoria do MEI é sempre no piso: um salário mínimo. Não sobe, não valoriza. Se você quer mais que isso, precisa complementar.

Traduzindo: o MEI que contribui só o mínimo vai se aposentar com um salário mínimo. Ponto. Em valores de 2026, isso é cerca de R$ 1.518 por mês. Se hoje você vive com R$ 5.000, planeja como vai fechar a diferença de R$ 3.500 daqui a trinta anos.

A saída é complementar. Você pode fazer uma contribuição adicional ao INSS (código 1910 ou 1295, a diferença vai numa GPS separada) pra contar como se fosse CLT. Ou pode montar sua própria aposentadoria via Tesouro IPCA+ 2050/2060 e ETF de ações. Fazer as duas coisas é o mais robusto.

Plano de saúde PJ: quanto sai mesmo.

Um dos motivos pra ter CNPJ, mesmo faturando pouco, é o acesso a plano de saúde coletivo empresarial. Ele custa entre 30% e 50% menos que o mesmo plano individual (que quase não existe mais no Brasil desde 2000, aliás).

Plano de saúde: PF vs PJ (adulto 32 anos, cidade grande, 2026)

  • Individual (mercado quase inexistente)

    Poucas operadoras aceitam, com carência maior

    R$ 900+

  • Coletivo por adesão via associação

    Precisa de vínculo com sindicato ou entidade

    R$ 550

  • Empresarial via MEI (mínimo 2 vidas em algumas)

    Você + cônjuge, ou você + sócio

    R$ 380

  • Empresarial via ME (a partir de 3 vidas)

    Quando virar ME, cai mais ainda

    R$ 320

Valores aproximados de operadoras nacionais, plano hospital + ambulatorial com coparticipação. Varia por região e histórico da carteira.

Nem toda operadora aceita MEI de uma vida só. Algumas exigem duas ou três. Se você tem cônjuge, filho ou sócio, resolve. Se não, é o argumento a mais pra virar ME assim que faturar consistente.

Quando virar ME e o custo real da mudança.

O MEI faz sentido enquanto você fatura até R$ 6.750 por mês em média. Passou disso com regularidade, começa a olhar pra ME (Microempresa) no Simples Nacional.

A alíquota do Simples pra serviço começa em 6% do faturamento (Anexo III), e sobe conforme cresce. Comércio começa em 4% (Anexo I). Não parece muito, mas em cima de R$ 10 mil por mês vira R$ 600 a R$ 1.000 por mês só de imposto. Some contador de verdade (R$ 300 a R$ 500 por mês) e você tem um custo fixo novo de perto de R$ 1.000 mensais que o MEI não tinha.

MEI vs ME (serviço, faturamento de R$ 10 mil/mês)

  • MEI, DAS mensal

    R$ 80

  • MEI, contador

    Opcional, muitos não usam

    R$ 0

  • MEI, total mensal

    R$ 80

  • ME, Simples Anexo III (6%)

    R$ 600

  • ME, contador mensal

    Obrigatório na prática

    R$ 400

  • ME, total mensal

    R$ 1.000

O salto é grande no papel. Só faz sentido quando o faturamento consistente compensa. Se você fatura R$ 12 mil e paga R$ 1.000 de custo fixo novo, sobrou R$ 11 mil brutos. Ainda vale, mas o valor precisa vir com regularidade.

A dica prática é: acompanhe o faturamento acumulado do ano todo mês. Se em julho você já passou de R$ 40 mil, provavelmente vai passar dos R$ 81 mil e é hora de conversar com contador pra planejar o desenquadramento antes que a Receita faça isso por você (e cobre multa).

Os erros mais comuns do MEI ano 1.

Onde a Fyn8 entra.

A maior dor do MEI é enxergar dois orçamentos ao mesmo tempo: o da pessoa (seu aluguel, mercado, lazer) e o do negócio (DAS, contador, reserva de imposto). Na Fyn8 dá pra montar as duas visões simultaneamente, com as transferências mensais do pró-labore projetadas nos meses seguintes já como receita da PF.

Cada nota emitida entra como receita PJ, os 30% de reserva de imposto viram uma meta separada, o DAS aparece como despesa recorrente. E quando você olha a tela do planejamento, sabe exatamente quanto sobra depois de tudo, sem precisar abrir três planilhas. É a mesma lógica do fechamento de mês pessoal, só que espelhada pro CNPJ.

O que fica.

MEI é excelente pra começar. Custa quase nada, dá acesso a plano de saúde melhor, garante o piso do INSS, e te ensina o básico da vida de dono. Só não confunde faturamento com sucesso.

O MEI que separa conta, guarda 30% de cada nota, contribui um pouco além do mínimo pra aposentadoria e sabe quando virar ME chega no quinto ano com negócio de pé. Quem trata CNPJ como conta salário extra costuma terminar o primeiro ano com pendência na Receita e sem reserva. A diferença não é sorte, é método.

Referências

  1. I Will Teach You to Be Rich. Ramit Sethi, 2009.
  2. Free to Focus. Michael Hyatt, 2019.
  3. Skin in the Game. Nassim Nicholas Taleb, 2018.
  4. Empresa Rica, Vida Rica. Gustavo Cerbasi, 2018.
  5. Do Mil ao Milhão. Thiago Nigro, 2018.
  6. Me Poupe!. Nathalia Arcuri, 2018.

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Bruno Carneiro

Escrito por

Bruno Carneiro

Fundador da Fyn8

Fyn8 — Finanças pessoais

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