Uma separação já é difícil o bastante sem a parte financeira. E ela vem junto: contas no nome dos dois, bens pra dividir, um orçamento que precisa ser refeito. No meio do cansaço, é comum querer só que acabe logo. Esse texto organiza o que dá pra organizar, pra que essa parte pese um pouco menos.
Se você está passando por isso, sinto muito, e espero que ajude. O que está aqui não substitui orientação jurídica. Um advogado de família, ou a Defensoria Pública pra quem não pode pagar, é quem conhece o seu caso. A ideia é você chegar nessa conversa sabendo quais decisões existem, como os regimes de bens funcionam no Brasil e o que costuma aparecer no ano seguinte.
O texto vale pra casamento e pra união estável, com ou sem filhos. Cada história é diferente, então pegue o que servir pra sua.
O que organizar primeiro.
Quando a decisão está tomada, algumas coisas compartilhadas precisam ser reorganizadas, de preferência em comum acordo. O objetivo é que cada pessoa saiba pelo que responde dali em diante, sem surpresa pra nenhum dos lados.
Uma ordem possível pras primeiras semanas
Conta corrente conjunta
Combinar o destino do saldo e abrir contas individuais
01
Cartões adicionais
O titular responde por toda a fatura; combinar o encerramento
02
Pix agendado e débitos automáticos
Rever o que sai de cada conta
03
Contas da casa (luz, água, internet)
Definir quem fica e transferir a titularidade
04
Investimentos em conjunto
Costumam ficar parados até a partilha
05
Financiamento compartilhado
Depende de aprovação do banco pra mudar
06
Seguro de vida e plano de saúde com dependentes
Manter até o acordo, pra ninguém ficar sem cobertura
07
Os itens 6 e 7 costumam demorar mais, e os outros podem andar enquanto isso. Vale conversar com seu advogado antes de movimentar valores altos, porque eles entram na partilha.
Regime de bens: o que define a divisão.
No Brasil, o regime de bens escolhido no casamento, ou o padrão legal quando nada foi escolhido, define como o patrimônio é dividido. É uma decisão tomada lá atrás, e muita gente nem lembra qual é a sua. Ele consta na certidão de casamento.
Comunhão parcial de bens (o padrão desde 1977).
Vale pra quem casou sem pacto antenupcial e, em geral, pra união estável sem contrato. Divide o que foi adquirido durante a relação. O que cada pessoa tinha antes, ou recebeu de herança e doação, fica de fora. Um imóvel comprado depois do casamento entra na partilha mesmo que esteja no nome de uma pessoa só.
Comunhão universal de bens.
Depende de pacto antenupcial. Divide tudo, incluindo o que cada pessoa tinha antes e, como regra, heranças recebidas.
Separação total de bens.
Também depende de pacto. Cada pessoa fica com o que está no seu nome. É o regime padrão pra quem casa com mais de 70 anos, e pode ser escolhido por qualquer casal.
Exemplo de conta: 12 anos de casamento, comunhão parcial
Imóvel comprado durante o casamento
Financiado, valor de mercado hoje
R$ 320.000
Saldo devedor do financiamento
-R$ 140.000
Reservas e investimentos
Em nomes individuais
R$ 40.000
Carro em nome de um dos dois
R$ 45.000
Patrimônio líquido do casal
R$ 265.000
Parte de cada pessoa
Metade, na comunhão parcial
R$ 132.500
Valores só pra mostrar a conta. Dívidas feitas em benefício da família também entram na divisão. Bens anteriores ao casamento ficam de fora quando a origem está documentada.
Pensão alimentícia, quando há filhos.
Com filhos menores, existe pensão. A lei não define um percentual. O valor é decidido olhando duas coisas: o que a criança precisa e o que quem paga consegue pagar. Na prática, muitas decisões ficam em torno de 20% a 30% da renda líquida, mas isso varia bastante com o número de filhos e a realidade de cada família.
A pensão pode combinar um valor mensal com o pagamento direto de itens como escola e plano de saúde. Deixar tudo descrito no acordo evita dúvida mais tarde. Em geral ela vai até os 18 anos e pode se estender enquanto o filho estuda. E o valor pode ser revisto na Justiça se a renda de quem paga ou a necessidade da criança mudar.
Financiamento em nome dos dois.
Um imóvel financiado em conjunto é a parte mais trabalhosa. Existem três caminhos, e cada um tem um custo.
Uma pessoa assume o financiamento.
O banco precisa aprovar, analisando se a renda de quem fica comporta a parcela sozinha. Aprovado, o contrato é alterado, e quem sai costuma receber a sua parte do que já foi pago, conforme o acordo.
Vender e dividir.
O imóvel é vendido, o financiamento é quitado com o valor da venda e o que sobra é dividido conforme o regime. É a opção que encerra o vínculo financeiro. Se o valor de venda for menor que a dívida, a diferença também é dividida.
Alugar e dividir o aluguel.
Os dois continuam responsáveis pelo financiamento, e o aluguel ajuda a pagar a parcela. Mantém uma ligação financeira entre as duas pessoas, então costuma ser uma solução temporária, até um momento melhor pra vender.
O cansaço também entra na conta.
Uma negociação longa desgasta, e é muito humano aceitar um acordo pior só pra poder descansar. Às vezes isso é mesmo o melhor pra você, e é uma escolha válida. O que ajuda é que ela seja uma escolha, feita sabendo do que está abrindo mão.
Chegar com as informações organizadas encurta o processo: lista de bens e dívidas, matrícula de imóvel, extratos, documentos que mostrem a origem do que você tinha antes da relação. Menos tempo de negociação significa menos desgaste.
Também ajuda pensar, antes da conversa com o advogado, em três referências: o mínimo que você considera aceitável, o que acha justo e até onde iria pra resolver rápido. Com elas em mente, fica mais fácil avaliar uma proposta num dia difícil.
O primeiro ano depois.
Terminado o processo, começa um orçamento novo. Morar sozinho custa mais do que metade do custo de morar a dois, porque aluguel e contas fixas quase não diminuem. Ao mesmo tempo, a renda da casa passa a ser uma só.
Nos primeiros meses, o que mais ajuda é refazer a lista de gastos fixos com os valores novos, incluir a pensão (paga ou recebida) e recomeçar uma reserva de emergência, no ritmo que der. É um período de ajuste, e ele passa.
Onde a Fyn8 entra.
Quando o orçamento muda de uma vez, ver os próximos meses ajuda a diminuir a ansiedade. Na Fyn8 você cadastra as despesas fixas novas e a pensão como recorrências, e o planejamento mostra como cada mês fica. Se a partilha gerou um valor, como a sua parte na venda de um imóvel, dá pra separar num objetivo próprio. Uma planilha simples com entradas e saídas faz o mesmo papel.
Um passo de cada vez.
A parte financeira de uma separação é trabalhosa, mas tem começo, meio e fim. Saber o seu regime de bens, organizar os documentos e ter clareza do que você considera justo já tira bastante peso do caminho.
Vá no seu tempo, e peça ajuda profissional pras decisões importantes. Se for pra dar um primeiro passo hoje, pegue a certidão de casamento e confira qual é o regime de bens. É a informação de que todas as outras dependem.
Referências
- Código Civil (Lei nº 10.406/2002): regimes de bens e alimentos. Presidência da República, 2002.
- Divórcio e partilha em cartório (Resolução nº 35/2007 e atualizações). Conselho Nacional de Justiça (CNJ).
- Your Money or Your Life. Vicki Robin & Joe Dominguez, 1992.
- I Will Teach You to Be Rich. Ramit Sethi, 2009.
- Women & Money. Suze Orman, 2007.
- Casais Inteligentes Enriquecem Juntos. Gustavo Cerbasi, 2004.
- Me Poupe!. Nathalia Arcuri, 2018.
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Escrito por
Bruno Carneiro
Fundador da Fyn8
Fyn8 — Finanças pessoais
Um começo simples: entender o próprio mês.
Cria a conta, lança algumas transações e o extrato começa a fazer sentido no mesmo dia.