Quase todo conselho de orçamento parte de um salário fixo que cai no mesmo dia. Pra muita gente a vida não é assim. Quem trabalha por comissão, diária, corrida, encomenda ou projeto tem meses cheios e meses magros, e planejar em cima disso parece impossível. Não é, só pede um método um pouco diferente.
Esse texto é pra quem tem renda que varia, total ou em parte: autônomos, vendedores, motoristas e entregadores, profissionais liberais, quem vive de bico ou de temporada. Ele mostra como encontrar o seu piso, como se pagar um valor fixo todo mês e o que fazer com os meses bons. Os números são exemplos, e a conta funciona com qualquer valor.
Uma coisa antes: renda instável cansa, e a preocupação com o mês seguinte é real. O objetivo aqui é diminuir essa incerteza, no ritmo que der.
Por que o orçamento comum não encaixa.
O orçamento tradicional pergunta “quanto você ganha por mês?” e divide esse valor. Com renda variável, a resposta muda a cada mês. No mês bom parece que sobra, e é natural gastar um pouco mais. No mês fraco, as contas fixas continuam do mesmo tamanho.
A saída é parar de olhar pra cada mês isolado e olhar pra um período maior. Em vez de um salário que vem de fora, você cria o seu.
Passo 1: descobrir a média e o piso.
Anote quanto entrou em cada um dos últimos seis a doze meses. Se não tiver tudo anotado, o extrato do banco e do aplicativo de trabalho ajudam, e uma estimativa já serve. Dessa lista saem dois números: a média e o menor valor, que eu chamo de piso.
Exemplo: seis meses de renda
Mês 1
R$ 3.400
Mês 2
R$ 2.100
Mês 3
R$ 2.900
Mês 4
O menor do período
R$ 1.800
Mês 5
R$ 4.200
Mês 6
R$ 2.400
Média dos seis meses
R$ 16.800 ÷ 6
R$ 2.800
Piso
O pior mês
R$ 1.800
Se a sua renda tem época forte e época fraca, como fim de ano ou alta temporada, vale olhar doze meses pra pegar o ciclo inteiro.
Passo 2: definir quanto você se paga.
Agora escolha um valor fixo pra viver por mês, entre o piso e a média. No exemplo, algo como R$ 2.400. Esse passa a ser o seu “salário”. Ficar abaixo da média é o que cria a folga: como você se paga menos do que ganha em média, os meses bons deixam sobra.
Se as suas contas essenciais já são maiores que o piso, o que é bem comum, esse número mostra o tamanho do risco nos meses fracos e ajuda a decidir o que priorizar. Não é sinal de que você fez algo errado.
Passo 3: uma conta de passagem.
Na prática, o método usa duas contas, ou uma conta e uma caixinha. Tudo que você recebe entra na primeira, a de passagem. Uma vez por mês, sempre no mesmo dia, você transfere o seu valor fixo pra conta do dia a dia. O que sobra na conta de passagem fica lá e forma o colchão.
O mesmo exemplo, se pagando R$ 2.400 por mês
Mês 1: entrou R$ 3.400
Sobraram R$ 1.000
Colchão: R$ 1.000
Mês 2: entrou R$ 2.100
Faltaram R$ 300
Colchão: R$ 700
Mês 3: entrou R$ 2.900
Sobraram R$ 500
Colchão: R$ 1.200
Mês 4: entrou R$ 1.800
Faltaram R$ 600
Colchão: R$ 600
Mês 5: entrou R$ 4.200
Sobraram R$ 1.800
Colchão: R$ 2.400
Mês 6: entrou R$ 2.400
Empatou
Colchão: R$ 2.400
Nos seis meses, a pessoa recebeu o mesmo valor todo mês, mesmo com a renda variando de R$ 1.800 a R$ 4.200, e terminou com um mês inteiro guardado.
O começo é a parte mais delicada, porque o colchão ainda está vazio. Ajuda começar num mês bom, ou se pagar um valor mais perto do piso nos primeiros meses e subir depois. Se o colchão zerar num mês fraco, você se paga o que tiver entrado e retoma no seguinte. O método aguenta esses tropeços.
Passo 4: contas fixas do tamanho do piso.
Sempre que for possível escolher, ajuda manter os compromissos fixos (aluguel, parcelas, mensalidades) num total que caiba no seu piso ou perto dele. Assim, mesmo no pior mês, o básico está coberto. Parcelas longas merecem um cuidado a mais, porque elas continuam iguais nos meses fracos.
Outra prática útil é pagar as contas do mês logo depois de se pagar, na mesma data. O que sobra na conta do dia a dia é o que está livre até o próximo pagamento.
Imposto, INSS e reserva.
Quem trabalha por conta própria tem dois cuidados extras. Um é separar o que pode ser devido de imposto e contribuir pro INSS, que garante aposentadoria e auxílio em caso de doença. A gente explica isso com os valores do ano em renda extra sem susto.
O outro é a reserva de emergência. O colchão cobre a variação normal da renda. A reserva cobre o que foge do normal, como ficar sem poder trabalhar por um tempo. Pra quem tem renda variável, costuma fazer sentido mirar em mais meses guardados. O passo a passo está em reserva de emergência.
Onde a Fyn8 entra.
Na Fyn8 você cadastra a conta de passagem e a conta do dia a dia separadas, lança cada recebimento quando ele entra e registra a transferência mensal pra você. O extrato mostra quanto entrou em cada mês, o que ajuda a recalcular a média e o piso de tempos em tempos, e as contas fixas podem ficar como recorrências. Um caderno com três colunas (entrou, me paguei, colchão) funciona do mesmo jeito.
Previsibilidade feita por você.
Renda variável não impede ninguém de se organizar. Ela só pede que a regularidade venha de dentro: um valor fixo que você se paga, uma conta que absorve os altos e baixos e contas fixas que respeitam o seu pior mês. Com o tempo, o mês fraco deixa de ser um susto e vira parte do plano.
Cada trabalho tem o seu ritmo, e o método pode ser ajustado ao seu. Se quiser começar por um passo só, anote quanto entrou em cada um dos últimos seis meses. Com essa lista você já enxerga a sua média e o seu piso.
Referências
- I Will Teach You to Be Rich. Ramit Sethi, 2009.
- A Psicologia Financeira. Morgan Housel, 2020.
- Como Organizar Sua Vida Financeira. Gustavo Cerbasi, 2012.
- Me Poupe!. Nathalia Arcuri, 2018.
- Controle financeiro para pequenos negócios e autônomos. Sebrae.
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Escrito por
Bruno Carneiro
Fundador da Fyn8
Fyn8 — Finanças pessoais
Um começo simples: entender o próprio mês.
Cria a conta, lança algumas transações e o extrato começa a fazer sentido no mesmo dia.