“Quero juntar dinheiro pra viajar.” Quase todo plano começa com uma frase assim, e ela é um ótimo começo. O que costuma faltar pra ela sair do lugar são quatro números. Com eles, o desejo ganha data e valor, e fica muito mais fácil de acompanhar.
Esse texto é pra quem tem um objetivo em mente (uma viagem, uma reserva, um curso, a entrada de um imóvel) e quer transformar isso em algo concreto. Vou contar de onde vem a ideia de meta com prazo, mostrar os quatro números com um exemplo e falar de como ajustar quando a meta não cabe no mês. Os valores do exemplo são só ilustração. O método é igual pra R$ 500 ou R$ 50 mil.
De onde vem essa história de meta “com prazo”.
A ideia nasceu no mundo das empresas. Peter Drucker, em The Practice of Management (1954), defendeu que o trabalho rende mais quando o objetivo é definido com clareza antes de se discutir o caminho. Ficou conhecido como gestão por objetivos.
Anos depois, em 1981, o consultor George T. Doran publicou na revista Management Review um artigo curto chamado There’s a S.M.A.R.T. Way to Write Management’s Goals and Objectives. Ele propunha cinco critérios pra uma meta bem escrita:
Framework SMART · Doran, 1981
S (Specific)
Específica, com contorno claro.
01
M (Measurable)
Mensurável em número.
02
A (Achievable)
Alcançável na sua realidade.
03
R (Relevant)
Relevante pra você, agora.
04
T (Time-bound)
Com prazo definido.
05
O artigo original tinha essas cinco letras. Versões mais recentes mudam algumas palavras, mas a ideia é a mesma.
Doran escreveu pensando em gestão de empresas. Com o tempo, a mesma lógica passou a ser usada em finanças pessoais, e hoje aparece em boa parte dos livros sobre o assunto, porque ajuda de verdade.
Os quatro números de uma meta financeira.
Adaptando o SMART pra dinheiro, eu resumo em quatro números. Não precisa acertar todos de primeira. O exercício de tentar preencher já mostra muita coisa.
Número 1. Quanto.
Em vez de “uma viagem”, um valor: por exemplo, R$ 12.000 pra 15 dias no Chile. Se você ainda não sabe o número, vale pesquisar passagem, hospedagem e gastos do dia a dia. Uma estimativa já serve, e dá pra corrigir depois.
Número 2. Quando.
Em vez de “algum dia”, um mês e um ano: setembro de 2027, por exemplo. A data é o que permite dividir o valor em partes e saber, a cada mês, se você está perto ou longe.
Número 3. Quanto por mês.
Aqui é só dividir. R$ 12.000 em 24 meses dá R$ 500 por mês. Se esse valor não cabe no seu orçamento hoje, existem três ajustes possíveis: alongar o prazo (em 48 meses, R$ 250 por mês), reduzir o valor (uma viagem de R$ 8.000 dá R$ 333 por mês) ou abrir espaço em outro gasto.
Às vezes nenhum dos três resolve, e isso é uma informação valiosa. Quer dizer que a meta, do jeito que está, não cabe neste momento, e que talvez faça sentido começar por uma menor. Descobrir isso no papel é bem melhor do que se frustrar no meio do caminho.
Número 4. Onde.
Dinheiro de meta costuma durar mais quando fica separado do dinheiro do dia a dia, porque na conta corrente os dois se misturam. Pra prazos curtos, de até uns dois anos, opções com resgate rápido e baixo risco, como Tesouro Selic ou CDB de liquidez diária, costumam servir bem. Pra prazos longos, existem títulos como o Tesouro IPCA+. Uma caixinha separada no banco também resolve. O que importa é ter um lugar só pra isso.
Escrita assim, basta olhar uma vez por mês pra saber como está. Se o aporte entrou, ótimo. Se não entrou, você ajusta um dos quatro números e segue.
Por que é difícil escrever.
Se é simples, por que tanta gente deixa a meta só na cabeça? Eu vejo dois motivos, e os dois são bem humanos.
O primeiro é que escrever mostra o tamanho do esforço. “Quero viajar” não pede nada de você. “R$ 500 por mês por 24 meses” é um compromisso, e dá um certo medo descobrir que ele talvez não caiba. É compreensível preferir o sonho vago.
O segundo é o que o Ramit Sethi chama de Rich Life: saber o que você quer de verdade. Essa pergunta é mais difícil do que parece, e ninguém é obrigado a ter a resposta pronta. Vale dar um tempo pra ela.
Dois cuidados no caminho.
Uma revisão a cada três meses.
A vida muda, e a meta pode mudar junto. O Michael Hyatt, em Your Best Year Ever (2018), sugere uma revisão trimestral: tempo suficiente pra ver progresso e curto o bastante pra corrigir a rota.
São uns 20 minutos e três perguntas. Estou no ritmo? A meta ainda faz sentido pra minha vida? Preciso mexer em algum dos quatro números? Mudar o prazo ou o valor faz parte do método, não é desistir.
Se a meta é de duas pessoas.
Quando a meta é dividida com alguém, entra uma conversa antes da conta. Uma pessoa pode querer a entrada de um imóvel, a outra um período sabático. O Gustavo Cerbasi, em Casais Inteligentes Enriquecem Juntos (2004), dedica um capítulo a isso, e a sugestão dele é conversar primeiro sobre o que cada um valoriza. Os números vêm depois, e ficam bem mais fáceis.
Onde a Fyn8 entra.
Na Fyn8, os objetivos têm exatamente esses campos: valor, prazo e a conta onde o dinheiro fica. A cada aporte, a barra de progresso anda, e você vê quanto falta e se o ritmo está de acordo com a data. Uma folha colada na geladeira cumpre o mesmo papel. O importante é a meta estar escrita em algum lugar que você veja.
Uma folha, quatro linhas.
Uma meta com prazo é só um desejo com quatro números ao lado: quanto, quando, quanto por mês e onde. Eles não garantem que tudo vai sair como planejado, mas mostram todo mês onde você está e o que dá pra ajustar.
Se quiser experimentar, escolha um objetivo e tente preencher as quatro linhas. Se algum número ficar em branco, não tem problema. Agora você sabe qual é a próxima coisa a descobrir.
Referências
- There’s a S.M.A.R.T. Way to Write Management’s Goals and Objectives. George T. Doran · Management Review, 1981.
- The Practice of Management. Peter Drucker, 1954.
- I Will Teach You to Be Rich. Ramit Sethi, 2009.
- Seu Dinheiro ou Sua Vida. Vicki Robin & Joe Dominguez, 1992.
- Your Best Year Ever. Michael Hyatt, 2018.
- Casais Inteligentes Enriquecem Juntos. Gustavo Cerbasi, 2004.
- Tesouro Direto: títulos e rentabilidade. Tesouro Nacional.
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Escrito por
Bruno Carneiro
Fundador da Fyn8
Fyn8 — Finanças pessoais
Um começo simples: entender o próprio mês.
Cria a conta, lança algumas transações e o extrato começa a fazer sentido no mesmo dia.