Investimento

Independência financeira: a matemática do 4%.

Quanto é preciso ter investido pra viver da própria renda? Existe uma referência, vinda de estudos dos anos 1990: cerca de 25 vezes o gasto de um ano. De onde ela vem, o que ela é, o que não é e como usar com os pés no chão.

Bruno Carneiro

Por Bruno Carneiro

Fundador da Fyn8

13 de agosto de 202610 min de leituraInvestimento

Quanto dinheiro uma pessoa precisa ter guardado pra viver da renda dos próprios investimentos? Parece uma pergunta sem resposta, mas existe uma referência bastante estudada. Ela cabe em uma linha e vem de pesquisas acadêmicas dos anos 1990.

A conta é essa: independência financeira é ter investido cerca de 25 vezes o que você gasta em um ano. Quem gasta R$ 36 mil por ano teria como alvo R$ 900 mil. Quem gasta R$ 24 mil, R$ 600 mil.

Eu sei que esses números são altos, e que pra muita gente parecem distantes. Esse texto não é uma promessa nem uma cobrança. É uma explicação de onde a regra vem, do que ela diz e não diz, e de como ela pode ser útil mesmo pra quem só quer chegar a uma parte do caminho, como complementar a aposentadoria ou poder trabalhar menos.

De onde vem o 25.

O número 25 é o inverso de 4%. E a taxa de 4% vem de dois trabalhos acadêmicos consecutivos.

Em 1994, William Bengen, um planejador financeiro americano, publicou no Journal of Financial Planning um artigo chamado Determining Withdrawal Rates Using Historical Data. Ele rodou simulações usando dados históricos do mercado americano e concluiu que uma taxa de saque anual de 4% do patrimônio inicial, reajustada pela inflação, sobrevivia a 30 anos na maioria absoluta dos cenários históricos, inclusive nos piores.

Quatro anos depois, três professores da Trinity University no Texas (Cooley, Hubbard e Walz) publicaram um estudo mais amplo, chamado Retirement Savings: Choosing a Withdrawal Rate That Is Sustainable, hoje conhecido como Trinity Study. Eles validaram Bengen usando 70 anos de dados. Com uma carteira 50/50 (ações mais títulos), uma taxa de 4% tinha 95% ou mais de chance de o dinheiro durar pelo menos 30 anos. Em muitos cenários, durava 40, 50, 60 anos, inclusive porque o patrimônio continuava rendendo enquanto era sacado.

A conta com alguns exemplos.

Valor de referência pra cada gasto mensal

  • Gasto de R$ 2.000/mês

    R$ 24 mil/ano × 25

    R$ 600 mil

  • Gasto de R$ 3.000/mês

    R$ 36 mil/ano × 25

    R$ 900 mil

  • Gasto de R$ 5.000/mês

    R$ 60 mil/ano × 25

    R$ 1,5 milhão

A mesma conta vale pra uma parte do gasto. Pra cobrir R$ 1.000 por mês com renda de investimentos, a referência é R$ 300 mil.

Repara que a meta depende do gasto, e não do salário. Isso tem um lado bom: ela pode ser calculada sobre a parte que você quer cobrir, e somada a outras rendas, como o INSS. Quem conta com uma aposentadoria pública precisa juntar só o suficiente pra diferença.

3,5%, 4% ou 5%? O debate atual.

Os estudos originais usam o histórico do mercado americano. Por isso existe um debate sobre qual taxa usar, inclusive aqui no Brasil.

A diferença entre as três importa menos do que parece no começo do caminho. Qualquer uma serve pra ter uma ordem de grandeza, e dá pra refinar a conta com o passar dos anos.

O que a regra dos 4% não é.

Nas redes sociais, a regra às vezes aparece como promessa. Vale separar o que ela realmente diz.

Ela não substitui o INSS. A aposentadoria pública continua valendo, com todas as proteções que ela traz, e pode ser somada à renda dos investimentos.

Ela não é uma garantia. É uma estimativa feita com dados do passado, que pede revisão de tempos em tempos.

E ela não obriga ninguém a parar de trabalhar. O Morgan Housel, em A Psicologia Financeira, descreve o maior benefício do dinheiro como poder decidir o que fazer com o próprio tempo. Muita gente que se aproxima da meta continua trabalhando, com mais liberdade pra escolher como.

Três passos pra fazer a sua conta.

O papel do gasto na conta.

Como a meta é 25 vezes o gasto anual, cada R$ 100 a menos por mês reduz o alvo em R$ 30 mil. É por isso que o movimento FIRE (Financial Independence, Retire Early), inspirado no livro Seu Dinheiro ou Sua Vida, da Vicki Robin, dá tanta atenção a gastar com intenção.

Isso tem limite, claro. Muita gente já vive com o orçamento justo e não tem de onde tirar. Nesse caso, o que move a conta é aumentar a renda quando houver oportunidade e guardar o que for possível, sem culpa pelo ritmo.

Onde a Fyn8 entra.

Uma meta de décadas é difícil de acompanhar de cabeça. Na Fyn8 você cadastra o objetivo com valor e prazo, registra os aportes e vê o progresso a cada mês. E o primeiro número da conta, o seu gasto anual real, sai dos lançamentos do dia a dia. Uma planilha com o gasto do ano e o total investido também serve.

Uma referência, não uma linha de chegada.

A regra dos 4% dá um número pra uma pergunta que parecia não ter resposta. Esse número pode ser grande, e chegar nele inteiro leva décadas de aportes. Nem todo mundo vai chegar, e tudo bem: cada parte do caminho já traz mais folga e mais escolha.

Se quiser começar, calcule quanto você gasta em um ano. É o primeiro dado de qualquer plano de longo prazo, e por si só já costuma trazer boas descobertas.

Referências

  1. Retirement Savings: Choosing a Withdrawal Rate That Is Sustainable. Cooley, Hubbard & Walz · Trinity University, 1998.
  2. Determining Withdrawal Rates Using Historical Data. William Bengen · Journal of Financial Planning, 1994.
  3. Seu Dinheiro ou Sua Vida. Vicki Robin & Joe Dominguez, 1992.
  4. Tesouro Direto: títulos atrelados à inflação. Tesouro Nacional.
  5. The Simple Path to Wealth. JL Collins, 2016.
  6. Common Sense on Mutual Funds. John C. Bogle, 1999.
  7. A Psicologia Financeira. Morgan Housel, 2020.

Compartilhar

Bruno Carneiro

Escrito por

Bruno Carneiro

Fundador da Fyn8

Fyn8 — Finanças pessoais

Um começo simples: entender o próprio mês.

Cria a conta, lança algumas transações e o extrato começa a fazer sentido no mesmo dia.